Por uma Racionalidade Libertária

Piotr Kropotkin no auditório da Universidade de Petrogrado

Nós, do PAC, estamos há mais de dois anos nos esforçando para promover um debate entre ciências, tecnologias e sociedade a partir de um olhar libertário e crítico. Temos essa preocupação porque, primeiro, entendemos que essas temáticas são fundamentais para se compreender a sociedade contemporânea; segundo, porque buscamos nos somar àqueles e àquelas que, não caindo no negacionismo terraplanista, tampouco endeusam /a ciência/, essa entidade que, para alguns, é isenta, neutra, infalível.

Não esperamos os ataques à ciência e tecnologia (C&T) para nos mobilizarmos, tampouco achamos que a onda anti-ciência veio do nada. Afinal, qual o diálogo que as instituições de C&T têm feito com a sociedade? Qual o contato que as pessoas que estão fora desses espaços têm com as ciências? Quanto de extensão (um dos três pilares da universidade) se faz nos espaços universitários? Pesquisas sobre a percepção pública da C&T no Brasil mostram que as pessoas não conseguem citar cientistas brasileiros, nem conseguem fazer a conexão de que universidades são produtoras de ciência. Então, de quem é a responsabilidade em relação à descrença nas ciências? Seremos nós, cientistas, o mesmo que os políticos, que aparecem nas periferias quando querem voto – no nosso caso, quando queremos que defendam as ciências e as instituições de C&T – para sumir e só reaparecer no momento de uma nova eleição – um novo ataque à C&T?

Não, não esperamos os ataques, não esperamos o negacionismo, o terraplanismo, para defendermos as ciências. No entanto, não fazemos como tantos, que, para defender as ciências, precisam, de um lado, negar qualquer outro tipo de conhecimento, e, do outro, mitificar a ciência como essa entidade infalível. Por aqui, enxergamos as ciências como elas são: construções humanas, potentes, mas, também, falíveis.

Ciência, Pluralidade e Falibilidade

Com nossa escolha, nosso posicionamento radicalmente crítico, radicalmente libertário – é possível ser libertário sem ser radical? -, temos que ser coerentes. E a coerência, nesse mundo permeado por hipocrisias de toda sorte, é um ônus. Não porque seja difícil manter nossa posição, mas porque, assim fazendo, nos tornamos oponentes dos dois pensamentos antagônicos já citados: somos contrários à racionalidade anti-ciência e à outra, cientificamente dogmática. Hoje, me dirijo a essa última.

Em primeiro lugar, saliento que me refiro sempre às ciências, e nunca à ciência, porque não reconheço a existência de uma ciência, mas de uma multiplicidade de conhecimentos, métodos, práticas, que fazem parte do escopo científico. Com toda a multiplicidade de saberes e práticas científicas, chamar tudo de a ciência, para mim, parece, no mínimo, um reducionismo.

Para além da multiplicidade das práticas e saberes científicos, é preciso reconhecer também que, primeiro, não é a ciência – sequer as ciências – quem faz as pesquisas, mas sim, pessoas. Parece óbvio, mas os discursos costumam falar mais dessa entidade – a ciência – do que dos e das cientistas, e a razão é clara: um ser humano nunca é perfeito, nunca é infalível; já uma entidade abstrata pode ser. Então nossa raiz positivista ainda presente acredita que a ciência é quem possui a verdade. Ela, em toda sua sabedoria e imparcialidade, pode responder a todas as perguntas, e responder de forma correta. Afinal, os números não mentem. Isso se traduz também no epíteto “ciências exatas”, que assume que tais ciências são de fato exatas – o que significaria essa afirmação, afinal? – , enquanto as outras não o são. Não à toa, no nascimento da sociologia, no fervor do positivismo, se buscava a aproximação dessa nova ciência, “não exata”, àquelas exatas, como, por exemplo, a concepção durkheimiana da sociedade como um organismo vivo, onde cada instância social seriam os órgãos e os indivíduos suas células[1]. Acontece que a sociedade é complexa demais – e nada estanque – para ser compreendida de forma tão simplificada.

Assim, se cria o mito de que essa entidade, a ciência, é neutra. Fria. Insensível. Que não cede a interesses políticos ou econômicos. Que prescinde de análises parciais. Assim, se, porventura a ciência agir de alguma forma que puder ser mal vista, não foi um problema da ciência. Foi uma má aplicação do método – essa outra entidade. As explicações científicas para a escravidão, a eugenia, hoje em dia – dizem – percebe-se que foi um mau uso do método, não uma prova cabal da parcialidade das ciências. Chamam essas problemáticas de “pseudocientíficas”. Não era o que se pensava na época. O que dizer dos eventos acadêmicos, artigos publicados, revisados por pares? Não faz parte do ethos científico? Chamando hoje de pseudociência, desonera-se essa entidade de sua responsabilidade. Pior ainda: permite que outras barbaridades do tipo continuem sendo feitas. Só o tempo mostrará quais práticas no futuro podem vir a ser condenadas e que hoje são comuns se tornarão “pseudocientíficas”, e, assim, novas barbaridades poderão ser praticadas, antes que se descubram seu caráter supostamente não-científico. A eugenia, que chamaram de pseudociência, inclusive, continua sendo propagada por aí, com base em pesquisas científicas.

Chamar essas práticas bizarras que a ciência já teve de pseudocientíficas é um erro.  Evidentemente eram práticas completamente equivocadas, mas a ciência já as apoiou. Dizer que era “pseudocientífico” significa dizer que a ciência não cometeria tal erro, e que, se cometeu, não estava fazendo ciência. O que não é verdade. Estavam fazendo ciência tanto quanto fizeram os que defenderam o famoso modelo atômico do “pudim com passas” e os que defendiam o fluido elétrico ou o éter. Tudo ciência, tudo equivocado. Assim como fizeram ciência aquelas e aqueles que argumentaram contrariamente a esses discursos, mostrando suas falhas e mesmo os seus perigos.

Os defensores dessa entidade neutra se esquecem que quem produz ciência são pessoas. Esquecem que as pesquisas precisam de financiamento, que dependem de demandas sócio-político-econômicas. Esquecem que ciência é uma construção coletiva, e, sobretudo, humana. Ou os avanços em tecnologias espaciais não tiveram relação com a Guerra Fria? Ou as pesquisas em física nuclear não tiveram relação com a Segunda Guerra Mundial? Ou grande parte das pesquisas que estão sendo feitas nos últimos meses não visam a solucionar a crise sanitária em que estamos inseridos? Ou o congelamento dos gastos em C&T não está afetando diretamente não só as possibilidades de pesquisa, como a vida de todos e todas nós que trabalhamos com C&T?

Dito isso, é claro que não estou defendendo a eugenia ou qualquer outra barbaridade do tipo. Estou dizendo que as ciências estão em disputa. Que não adianta chamar de pseudocientífico. Pode ser científico e não ser verdade. Pode ser revisado por pares e ser execrável. E ter clareza da não neutralidade das ciências é fundamental para podermos enfrentar essas pessoas que buscam justificar seus pensamentos e práticas através do discurso científico.

Que fique claro: as ciências são feitas por pessoas e, dessa forma, não têm como ser neutras. É essa visão ingênua – ou mal intencionada – que permite que o pensamento tecnocrático se expanda. Pensamento esse que é amplamente usado pelo neoliberalismo, seja de forma retórica ou não. É essa crença de que a ciência é neutra que leva à crença de que quem tem conhecimento técnico não vai agir de acordo com seus interesses pessoais, políticos ou econômicos. É pura fantasia. Aliás, quem trabalha com C&T sabe muito bem que não existe neutralidade. Se não sabe ainda, reflita. Veja como suas hipóteses interferem diretamente na forma com que você lida com seu objeto de pesquisa. Veja de onde vêm suas hipóteses. Veja quais adequações você faz, quais dados escolhe ignorar, quais variáveis escolhe tirar de sua análise. E me diga se não há um viés – por mais que haja um esforço para nos aproximarmos o máximo possível de uma objetividade.

Os dogmáticos da ciência são exatamente isso: dogmáticos. Trocaram o olhar cético pelo olhar do deslumbre. A ciência é o novo dogma. Dizem que se /a ciência/ falou, é verdade. Logo, quando a ciência errou, não era ciência. Negam tudo que não é ciência. E abrem espaço para as famosas reportagens que afirmam “cientistas dizem que…”, sem precisar aprofundar em quais são esses cientistas e como chegaram a essa conclusão. Basta a afirmação. Esquecem que “cientistas [homens] disseram”, durante muitos anos, que somente pássaros machos cantavam. Foi necessário uma maior presença de mulheres fazendo essas pesquisas para que se descobrisse que muitas fêmeas também cantam. Quem são os cientistas que chegam essas conclusões, pelo visto, interfere diretamente nas conclusões. Eis a suposta neutralidade científica.

Se me Atacar, Vou Atacar

Esse ano de 2020 não está sendo para amadores. Em meio ao terraplanismo negacionista, os amantes da ciência ingênuos e os dogmáticos da ciência, no lugar de defender sua posição, resolvem atacar. Atacam práticas religiosas, práticas de saúde coletiva de outra natureza que não a medicina alopática, atacam misticismos, crenças de povos originários, enfim, tudo que eles dizem que não é ciência.

Ainda que não tenhamos simpatia pela apropriação do discurso científico para práticas de outra natureza – como coach quântico e afins -, não caímos também no ataque a qualquer prática que determinadas “mentes brilhantes” dizem não ser ciência, e, “portanto”, não serem válidas. Já escrevemos um texto criticando a espiritualidade neoliberal. Temos, certamente, críticas a falta de criticidade nesses meios e ao mal uso de conceitos científicos para se validar práticas que nada têm a ver com aquele conceito. Isso não significa que vamos negar qualquer conhecimento que não se encaixe nos atuais paradigmas científicos. Não há contradição em defender as ciências e ser religioso, ou usar práticas alternativas de saúde. Existe, sim, contradição entre defender as ciências e ser terraplanista. Aí sim.

E nesse ponto não se encontram somente os dogmáticos da ciência, mas também os dogmáticos da revolução. Mesmo no campo libertário, ainda vemos aqueles que atacam as religiões, as crenças populares, os saberes ancestrais. Eu entendo os anarquistas e libertários em geral do final do século XIX e início do século XX que precisavam defender as ciências – ainda com muita influência positivista – e atacar a Igreja. Mas não estamos mais no século XX, nem estamos na Europa. Embora tenhamos muitos problemas com relação às práticas obscurantistas promovidas por igrejas diversas, não são só as crenças religiosas que promovem essas práticas. Novamente, cria-se uma ficção de que uma racionalidade “científica” implicaria em um mundo onde essas práticas não existiriam. O que, claro, é uma besteira. Essas práticas são humanas, e podem ser legitimadas por religiões, por doutrinas políticas (como os campos de concentração em governos socialistas autoritários) ou por ciência (como no caso da escravidão). Temos que criticar essas práticas, e suas buscas por legitimação, sejam elas religiosas, ou não.

Então cabe a pergunta: qual a necessidade desses ataques? Um físico se torna mais físico se atacar a astrologia? A defesa de seu campo do conhecimento depende do ataque a outros campos? Como argumentar sobre a necessidade de se defender as ciências se torna argumentar sobre a não-cientificidade de práticas diversas?

Aliás, o que é ciência? Quem diz o que é científico e o que não é? O que dizer, por exemplo, da acupuntura, que não segue os caminhos da medicina ocidental, mas que é o centro de cursos de pós-graduação em medicina? E, afinal, as pessoas que compartilham a imagem acima conseguem definir ciência? São versados em todas as áreas do conhecimento que tratam dessas práticas? Quero dizer, eu, que sou físico, e que tenho um conhecimento muito limitado de diversos campos da própria física, sou capaz de dizer o que é ou não é um conhecimento cientificamente válido na área de saúde, por exemplo? Quão arrogante eu tenho que ser para fazer tal assunção?

O problema da demarcação é um problema filosófico antigo e complexo, ainda sem resolução definitiva. Trata-se justamente de separar o que é ciência do que não é. E provavelmente nunca chegaremos a uma resolução, pelo simples fato de que as definições são sempre limitadas. Sobretudo quando tentamos colocar sob um mesmo termo as inúmeras formas de conhecimento científico. Com isso, não quero dizer que não haja importância nessa questão filosófica, mas que, se é para discutir o que é ciência, que nos aprofundemos no debate, em vez de partirmos de uma compreensão rasa para sair afirmando que tais e tais conhecimentos e práticas são “pseudocientíficos”. Pergunto aos dogmáticos científicos: vocês conseguem definir o método científico? Conseguem achar uma definição que abarque todas as ciências? Muitos dizem até que esse método – essa outra entidade – não existe[2]. O que dizem vocês?

Da Racionalidade Moderna à Racionalidade Libertária

Precisamos avançar, sobretudo se partirmos de um campo libertário. Não mais buscar uma racionalidade iluminista, moderna. Não mais cair no canto positivista, na ode à ciência neutra, objetiva, infalível. Devemos ir além. As compreensões de outrora não só não podem responder às demandas de hoje, como também não podem fazê-lo as compreensões de alhures. Me dirijo particularmente a pessoas do século XXI, no Brasil. A racionalidade europeia dos séculos passados não é suficiente para nós. Não é a racionalidade moderna, europeia, branca, colonial que vai responder a todas as nossas demandas. Avancemos.

Nesse sentido, o movimento decolonial é acertadamente enfático: que usemos o que pode ser usado do que já foi dito, mas que não fiquemos presos a um modelo de racionalidade que não foi produzido por nós, mas inculcado pelos colonizadores[3]. Do lado de cá, produzimos muita coisa boa também.

Como enfrentar o negacionismo, então? Não acredito que o caminho seja trocar um dogma (religioso, por exemplo) por outro (a ciência enquanto dogma). O que devemos é promover uma criticidade. Criticar o negacionismo, mas também criticar a “confiança imediata” em qualquer pesquisa científica. Não basta não ser negacionista. Não podemos também simplesmente aceitar tudo o que vem precedido de “pesquisas apontam”, ou “cientistas dizem”. Debatendo esse tema com os companheiros do PAC, uma companheira resumiu bem: “não basta não ser negacionista; é preciso desdogmatizar a racionalidade científica como principio e fim de toda e qualquer ‘verdade’ “. Devemos ser radicalmente críticos e radicalmente libertários: assumir uma postura desconfiada com qualquer dogma; com qualquer pensamento e prática, mesmo os mais libertários.

Devemos criticar práticas que fazem uso do discurso científico sem nenhuma relação ter com os conceitos originais. Devemos criticar os coach quânticos, porque buscam validar seu conhecimento através do carimbo científico. Mas por que criticaríamos as benzedeiras do Vale do Jequitinhonha, que não cobram fortunas por suas práticas e não veem necessidade de travestir sua rezas de ciência?

Devemos, por exemplo, ter desconfiança sobre essas vacinas sendo produzidas. Muita coisa do processo científico está sendo atropelada nesse período de desespero pandêmico. Não quero, com isso, dizer que não devamos avançar o mais rápido possível na busca da vacina, mas que temos que ter clareza de que as coisas não estão andando como normalmente andam. Já escrevemos um texto sobre isso. Acho que o seguinte trecho é bastante elucidativo:

Descrevi essas dinâmicas da ciência para fazer uma proposição difícil: que nós olhemos a Ciência com suspeição. Não a suspeição paranóica neurótica dos conspiradores terraplanistas, que afirmam suas convicções sem relação nenhuma com a materialidade. Não. Mas uma suspeição crítica.

Suspeição crítica não só com as ciências, mas também com os discursos ideológicos. Mesmo os mais libertários, pois há dogmáticos em todo lugar. E, meu amigo, se um pensamento se assume verdadeiro a priori e impede a crítica e autocrítica, seja esse pensamento qual for, ele é dogmático; autoritário. Por isso não podemos debater ciência sem debater sociedade, sem debater política, sem debater perspectivas revolucionárias. O debate sobre ciências não está separado do debate sobre política. Que possamos construir uma racionalidade libertária!

Jorge Vitral é físico, mestre em educação e é um dos fundadores editores do Portal Autônomo de Ciências.

Referências

[1] DURKHEIM, É. Educação e Sociologia. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. 120 p.

[2] MEDAWAR, P. The Limits of Science. Oxford: Oxford University Press, 1984.

[3] MIGNOLO, W. D. Desobediência epistêmica: A opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF  Dossiê: Literatura, língua e identidade, Niterói, n. 34, p. 287324, 2008.

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