O cavalo-vacina e a negação do tempo

Foto de Martin Damboldt no Pexels

Por: Valentina e LinFranco

Versión en español disponible aqui: El Caballo-vacuna y la negación del tiempo

Faz tempo que queremos escrever sobre a ansiada, esperançosa e lucrativa “Vacina Covid-19”. Escolhemos justamente esses adjetivos, pois disso que vamos falar: de um processo que envolve ansiedades, salvacionismo e lucro. Ou seja, emoções, utopias e desigualdades. Mas que também refere a “função social” da ciência, no caso, a importância das descobertas científicas para prevenir doenças transmissíveis de alcance global. 

Nossa leitura sobre o tema será apresentada, como o processo de fabricação das vacinas, em três fases. Cada fase será complementada por uma cena respectiva a fim de dar conta de nossos sentimentos e reflexões. Por meio desta proposta (de combinar fases e cenas), esperamos abordar de forma crítica, mas “sem perder a ternura”, o assunto “vacina covid” . A fase I é a da “Ansiedade”, que se completa com a cena do “Covidpódromo”. A fase II será a da “Esperança”, com sua cena específica, “O triunfo do cavalo-vacina”. Finalmente a fase III que falará de alguns “Receios” dentro da cena: “Currais e mais apostas”.  

Senhoras e senhores, foi dada a largada! A fase I vai rolar. Esperamos então, não responder suas dúvidas, mas sim, levar algo de sagacidade, humor e paciência, neste looping-pandêmico na espera da vacina.

Prólogo. Vacina com “V” de Vaca

Sempre é bom, começar pelo começo… de onde que vem a palavra Vacina? Se parece com “Vaca”né? Então, tem a ver com isso sim. A história relata que lá pelos 1798 um cientista inglês, Edward Jenner, observou que umas mulheres que ordenhavam vacas tinham imunidade para a Varíola. Aí o cientista inglês se perguntou: – “ué, por que essas senhoras não pegam a doença?” Então descobriu que elas não pegavam porque já tinham contraído, em pequenas quantidades, a Varíola Bovina, ou seja: ordenhar as vacas, tinha “vacinado” elas. 

O cientista inglês, ficou curioso com sua descoberta, tirou um pouco de pus da mão de uma mulher trabalhadora rural, e começou a fazer testes com outra pessoa, criança de oito anos, por sinal. O teste, basicamente era, introduzir no garoto o pus retirado da senhora para ver se o sistema imunológico do menino reagia. Efetivamente, isso foi o que aconteceu e a criança desenvolveu imunidade contra a forma grave da doença. 

Aí, o cientista inglês, muito orgulhoso de seu experimento, começou a fazer outros e outros muitos testes. Os colegas amigos, outros cientistas também ingleses, ou alemães, ou franceses, não estavam muito felizes com esse tipo de “inovação inoculadora” de doenças animais. Eticamente era contestável. Mas o cientista inglês, continuou. Mais testes e muita conversa com colegas (mais amistosos) e outros conhecidos: empresários, investidores, agentes do governo, esse tipo de gente. Depois de uns anos, conseguiu! patenteou, produziu e vendeu a salvação da Varíola (BioManguinhos, 31 jan 2020).

Parece historinha, em parte é… mas não é só isso. 

Confome a Fundación IO (2 ago 2020) a Vacina da Varíola, desde os primeiros experimentos até que foi efetiva em algumas partes do mundo, demorou mais de 50 anos. Aliás, foi só em 1980, quase 200 anos depois do começo dessa história, com os avanços em seringas e outros insumos, e depois de um esforço coletivo entre vários países para uma “produção conjunta” em finais dos anos 1960, que a doença conseguiu ser erradicada. Sabemos que a vacina da varíola foi a primeira vacina, então também devemos relativizar esses “tempos” e “velocidades”. A ciência farmacológica, aliada fiel ao desenvolvimento do capital, ao poder global e a esperança de vida, vem melhorando seus motores.  

Vamos então a isso que nos preocupa: uma vacina eficaz e universal contra a Covid-19.

Fase I. Ansiedade > Cena I. O Covidpódromo 

Muitas das notícias que falam da vacina covid-19 tem um enquadramento similar. Falam de corridas, de testes, de farmacêuticas, de prazos bizarros, de passes de mágica, de geopolítica, de cientistas que não dormem, de efeitos que prometem, de recrutamento de voluntários, de que a cura global “está chegando”, de interesses de mercado. É que o assunto “vacina Covid-19”, também já pegou aquele vírus que dissemina, no mesmo ritmo sideral que o corona, diversas, contraditórias e frenéticas informações. 

O primeiro sintoma dessa “infodemia vacina covid” é ansiedade. Isto se deve, em parte, a uma narrativa que apresenta esta missão científica (e corporativa) como uma “grande corrida”. Importante lembrar que nas corridas, sejam de carros, de cavalos ou de atletas, sempre há um único vencedor/a. E são as torcidas, os patrocinadores, os apostadores e os times desse/a vencedor/a, os que se interessam e movimentam (com mais ou menos ênfase, com mais ou menos grana) as ânsias de vitória. Bastante sábia é aquela frase do tango de Gardel e Le Pera “Por una cabeza, todas las locuras” (Por una cabeza, 1935).    

E nesta corrida, há muitos cavalos na pista. Conforme Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina de Baylor, Estados Unidos, aumentar o número de cabeças concorrentes é a melhor estratégia quando as projeções falam de um desenvolvimento científico e farmacológico recorde: 18 meses. Para isso, segundo o reitor, é necessário: “colocar o máximo de cavalos possível na corrida” (em inglês: “put as many horses in the race as you can”).(Thompson, 30 abr 2020).
No caso da vacina covid, a metáfora hipódroma pode ficar mais gráfica ainda. A seguinte notícia de Sanar Medicina (25 set 2020) é bastante representativa da cena que se repete em inúmeras mídias:

A corrida pela vacina para covid-19 ganhou novos participantes na fase 3. As vacinas, que tipicamente demoram anos para serem produzidas, continuam na corrida para serem disponibilizadas o mais rápido possível.
De acordo com a OMS há, até o presente momento, 38 vacinas em testes clínicos, sendo testadas em humanos, e 149 em testes pré-clínicos. […] Neste post falaremos sobre as principais vacinas mais próximas de cruzar a linha de chegada.

Depois de ler isso, em nossas cabeças aparece a seguinte imagem: uma pista infinita, onde grupos de cavalos se aglomeram por setores. Os que estão no setor “testes clínicos” aparecem mais pequeninos, pois estão mais longe do nosso campo visual. São poucos e vão a todo vapor. Sua velocidade está diretamente relacionada ao volume crescente de apostadores, de torcedores e de novos times que se dedicam ao cuidado do cavalo. Mais perto, conseguimos ver um outro conjunto de cavalos, os do setor “testes pré-clínicos”. Quase que quadruplicam ao outro grupo, mas estão algo menos prontos para sair no pique. Estão menos preparados, e parecem cavalos mais jovens. Alguns são meio esquisitos (falam que são um “novo tipo de cavalos”). Compartilham uma falha no relógio pois saíram mais tarde que os que estão na frente. Apesar do atraso, sua potencial velocidade ainda é imprevisível.. como aqueles já mais velozes, dependem dos apostadores e de algum outro lobby para decolar.  

Completa a imagem, o horizonte plano e nebuloso da pista infinita. Parece que quando chegar na meta, o melhor cavalo vai ganhar mais apostadores para formar um exército, daquele mesmo cavalo multiplicado por cada habitante na terra, e assim conseguir vencer o Golias, o indestrutível vírus global. 

A metáfora equestre evoca uma “hípica”, perdão, uma “épica” farmacêutica-esportiva daquelas. Talvez, quem sabe, a “corrida da vacina” seja o título do clássico literário da era pós pandemia. O negócio é, quem será o autor.

Mas por ora, nossas figuras de linguagem com cavalos ainda não se esgotaram. Voltaremos com mais relinchos nas próximas duas partes deste texto. Afinal, ainda não sabemos, nessa corrida inédita, quais animais chegarão primeiro, em quais condições, se essa chegada vai ser válida e, principalmente, se a gente que acompanha de longe, pelo celular (e não nos opulentos camarotes do jockey club) vai se beneficiar de forma justa dessas apostas.

Valentina, é comunicadora e pesquisadora social. Mestre e doutoranda em educação em ciências e saúde.
LinFranco é biomédico e mestre em comunicação e informação em saúde. Um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.

Referências

BioManguinhos, (31 jan 2020). Conheça a história das vacinas [Matéria de divulgação/educação científica]. Fiocruz. Disponível: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/noticias/1738-conheca-a-historia-das-vacinas

Fundación IO (2 ago 2020). ALGO DE HISTORIA. ¿CUÁNTO TIEMPO LLEVÓ DESARROLLAR ESTAS 12 VACUNAS? [Conteúdo informativo] Disponível: https://fundacionio.com/2020/08/02/algo-de-historia-cuanto-tiempo-llevo-desarrollar-estas-12-vacunas/

Gardel, Carlos; Le Pera, Alfredo. (1935). Por una cabeza [Música]. Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=SJ1aTPM-dyE&feature=youtu.be&t=48

Sanar Medicina (25 set 2020) Vacina para COVID-19: a corrida. Sanar Med. [conteúdo informativo]. Disponível: https://www.sanarmed.com/vacina-para-covid-19-a-corrida-atualizacao

Thompson, Stuart (30 abr 2020). How Long Will a Vaccine Really Take? The New York Times, Opinion [matéria jornalística]. Disponível: https://www.nytimes.com/interactive/2020/04/30/opinion/coronavirus-covid-vaccine.html?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=905babc439-briefing-dy-20200501&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-905babc439-45246642

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