Do zika ao corona

Resolvi escrever sobre a pandemia. Esperei um tempo para isso, pois não queria falar daquilo que não sabemos, que ainda não temos como saber e que continuamos, de modo geral, sem saber. Nesses momentos talvez seja uma boa tomar como referência experiências passadas para pensar o presente urgente. Então, para abordar o corona, resolvi voltar à última epidemia em grande escala que introduziu uma infecção nova: o surto de zika vírus de 2015-2016. Até o final do texto espero descrever um pouco as dinâmicas da ciência em tempos de crise e trazer elementos para nos orientar frente ao monte de informação que nos chega diariamente.

O zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes e pode gerar uma doença de sintomas bastante parecidos com os da dengue: febre, dores, vermelhidão na pele. Um agravante, no entanto, aumentou os alarmes quanto à zika. Ao infectar infectar mulheres gestantes, ele podia provoca microcefalia e outros problemas de desenvolvimento do sistema neurológico nos fetos.

A epidemia do zika gerou uma grande aceleração dos tempos normais da ciência. Só em 2016 foi publicado cerca de 60 vezes mais artigos sobre o zika vírus que em todos os anos anteriores somados desde sua descoberta em 1947 [1]. O tempo médio de publicação de um artigo do momento em que ele foi enviado para uma revista científica até o momento em que ele foi aprovado por outros cientistas revisores foi estimado em 22 dias em comparação a uma média de 100 dias para situações não epidêmicas [2]. Mais gente colaborou em cada estudo [3] e as parcerias de pesquisa internacionais aumentaram [4]. A epidemia acendeu o debate da publicação dos preprints, ou seja, documentos científicos com resultados preliminares de pesquisas em andamento, que ainda não foram revisados por outros pesquisadores [5]. Existiu toda uma estrutura que favoreceu essa aceleração: as agências financiadoras disponibilizaram verbas específicas para o zika; os laboratórios com infraestrutura prévia redirecionaram seus equipamentos e mão de obra para pesquisa em zika; as revistas científicas, já totalmente digitalizadas, lançaram chamadas para publicação prioritária e rápida. E a ciência de fato foi rápida quando o Brasil correlacionou infecções de zika com casos de microcefalia em recém nascidos, por exemplo.

Uma situação parecida já está acontecendo com o coronavírus e em ainda maior escala. Uma busca no momento da escrita deste texto resulta em 4.966 novos trabalhos publicados até agora em 2020. Número já bastante superior à média de 700 artigos anuais dos anos anteriores [6]. É uma média de 41 artigos publicados sobre o tema por dia só neste ano.

Com isso as revistas publicam mais, os autores são mais citados e se produz mais conhecimento científico. O caráter de urgência justifica a aceleração de todo o processo, certo? Bom pode não ser tão simples. A infame e apressada defesa do uso da cloroquina no tratamento da covid-19 [7], por exemplo, se enfraqueceu quando um estudo clínico conduzido em Manaus indicou que não era possível afirmar o efeito curativo da droga sobre pacientes em estágios graves e que o seu uso em altas doses tinha efeitos tóxicos e provocava arritmias cardíacas [8].

Eu não encontrei nos buscadores de trabalhos científicos, algum que tivessem analisado o efeito dessa aceleração em um surto sobre a qualidade e confiabilidade dos artigos publicados sobre zika vírus. Análises sobre a reprodutibilidade dos trabalhos, quantidade de artigos retratados, a ética envolvida nessas pesquisas são trabalhos a se fazer. Enquanto isso, os trabalhos sobre covid-19 seguem em aceleração total.

 

O pico epidêmico

Um trabalho recente sendo conduzido por pesquisadores israelenses traz uma abrangente análise temporal da quantidade de artigos científicos publicados sobre diversos vírus patogênicos, incluindo coronavírus [9]. O que eles encontraram é que de modo geral, se aumenta muito o número de publicações sobre uma doença após uma epidemia, mas que esse pico cai drasticamente alguns anos depois. E essa queda se dá acentuadamente nos periódicos “de alto impacto”, ou seja, aqueles que são mais lidos e mais citados (e que, presumivelmente, priorizam publicar os assuntos que estão em alta). A SARS e a MERS, doenças causadas por diferentes coronavírus que causaram epidemias no passado recente, seguiram esse padrão de publicação. Como consequência, os autores constataram que os coronavírus tiveram significativamente menos estudos totais publicados no passado quando comparados com outras viroses, como gripe, HIV-AIDS e hepatites, o que se traduziu em menos colaborações e descontinuidade de financiamentos. Além disso, o estudo constata que os pesquisadores que publicaram sobre SARS, MERS e ebola tinham em média menos anos de trabalho no tema que pesquisadores que publicaram artigos sobre outras viroses.

Com esse dado eu proponho voltar ao zika vírus. Como está sua situação atual? Em termos científicos, a quantidade de publicações de artigos com zika no título parece ter se mantido estável desde 2016, tanto no Brasil quanto internacionalmente [10]. No entanto, a quantidade de estudos financiados vem decrescendo desde então. A plataforma digital Pesquisa Saúde registra todos os estudos com financiamento total ou parcial vindo do Ministério da Saúde (MS) e indica que de 90 estudos com zika vírus no título financiados em 2016, há 5 financiados em 2019, sendo que nenhum deles possui foco em microcefalia (Figura 1) [11]. No entanto, essa diminuição de estudos financiados pelo MS provavelmente significa que, não havendo outro surto, haverá queda no pico de artigos sobre o zika vírus daqui a poucos anos.

 

Gráfico plataforma Pesquisa Saúde
Figura 1: gráfico com a quantidade e total de recurso das pesquisas sobre Zika vírus financiadas pelo Ministério da Saúde.

 

E apesar de não ter causado mais nenhuma epidemia, o zika continua circulando no país e denota o risco de um novo surto no futuro. Boletim do Ministério da Saúde, lançado em novembro do ano passado [12], relata a notificação de 29 nascidos em 2019 com alguma alteração no desenvolvimento comprovadamente causada pelo zika. No total hoje são 2969 crianças vivendo no Brasil nessa condição, a maioria deles recebendo cuidados no Sistema Único de Saúde (SUS).

Muitos estudos foram feitos e algumas patentes foram registradas desde 2015 [13]. No entanto, ainda não desenvolvemos tratamento antiviral específico e ainda não temos uma vacina aprovada. Uma análise no tempo das publicações sobre o zika [4] mostra uma dinâmica de mudança das temáticas. As publicações de 2015 e 2016 focaram mais nas questões de epidemiologia, diagnóstico, aspectos clínicos e entomologia, com contribuição expressiva do Brasil. As publicações de 2017 e 2018 já tinham uma abordagem mais da biologia celular e molecular. Essa dinâmica indica que, mesmo com a aceleração dos tempos da ciência, há um caminho que o conhecimento traça e que soluções não são produzidas do nada.

Isso indica a importância no investimento continuado e estratégico em pesquisa e infraestrutura científica para responder às crises a curto prazo e produzir soluções a longo prazo. E nada disso faz sentido sem a ampliação e fortalecimento de nosso sistema de saúde universal gratuito.

 

As ciências não são uma arma

Descrevi essas dinâmicas da ciência para fazer uma proposição difícil: que nós olhemos à Ciência com suspeição. Não a suspeição paranóica neurótica dos conspiradores terraplanistas, que afirmam suas convicções sem relação nenhuma com a materialidade. Não. Mas uma suspeição crítica.

E antes de continuar, é importante reforçar que, as decisões coletivas precisam ser tomadas de acordo com o que há de mais consolidado no saber: a pandemia é grave, o isolamento social funciona para diminuir o número de casos e achatar a curva de infecções, ainda não há curas e vacinas para a covid-19. Portanto, saiam de casa só se estritamente necessário, usem máscaras e defendam o SUS. Nada do que digo aqui muda essas recomendações.

Dito isso, estou escrevendo no contraditório de pedir a suspeição crítica na Ciência em um momento em que as ciências vão sim evitar uma catástrofe ainda maior. E por que peço isso? Primeiro porque a quantidade enorme de informação nova saindo a todo momento gera ansiedade, senão pânico. O conhecimento científico é, no entanto, produzido com o tempo em um processo coletivo e social e não por trabalhos pontuais individuais. Há debates, consensos, retratações, refutações, incertezas, vieses, conflitos de interesses e muito produtivismo envolvido. Um artiguinho só não faz verão e não sabemos ainda qual será o efeito da aceleração da ciência sobre a qualidade dos estudos publicados.

Segundo porque as ciências não são absolutas nem totais. As incertezas e imprecisões fazem parte da ciência; trabalhos e suas proposições se atualizam com novas evidências. O epidemiologista Neil Ferguson do Imperial College of London que conduziu a criação do modelo matemático que guiou a Organização Mundial da Saúde (OMS) e diversos governos em suas medidas de isolamento social prevê a publicação de um novo modelo em alguns dias [14]. Além disso, de modo geral, cada estudo é feito em condições muito específicas e, por isso, explicitam suas limitações. Outro artigo de grande circulação com modelos matemáticos sobre a pandemia [15] relembra as condições do estudo a todo momento: os gráficos foram gerados com dados das epidemias anteriores de diferentes coronavírus em países de clima temperado; há muito ainda a se saber sobre imunidade cruzada, sobre sazonalidade do vírus e sobre o tempo da imunização nas pessoas. Mas o que viralizou do artigo foi a possibilidade, dita em uma linha no fim do texto, de termos que fazer quarentena alternada até 2022.

Por fim, defendo a suspeição crítica às ciências especialmente quando elas são retratadas como uma “arma” contra a epidemia. A Ciência é produtora e produto desse mundo desigual, citadino, globalizado, ultra-acelerado e ambientalmente devastado que estabeleceu as condições de existência para a pandemia. A Ciência não pode ser arma final voltada para problemas que ela mesma cumpre um papel em criar. Essa proposição em si valeria um texto só para ela.

Eu não vou dar respostas definitivas, assertivas sobre nada. A suspeição crítica que eu peço que tenhamos com a ciência, é aquela que vocês devem ter com este texto e com outros textos de divulgação e jornalismo científicos. E é uma suspeição que eu peço encarecidamente que meus colegas comunicadores de ciência também tenham. Principalmente com o discurso positivista que atribui a indivíduos e a trabalhos uma legitimidade inquestionável: “o médico do hospital Sírio Libanês afirma”, “o professor da USP defende”, “o artigo publicado na revista Science por grupo de Harvard conclui”. As ciências são sim a fonte de evidências que nos aconselharão e guiarão nessa crise, mas elas não precisam ser geradoras de mais ansiedade e sofrimento em um mundo onde não faltam motivos para tanto. As ciências têm seus tempos e dinâmicas e não estão dissociadas de nossas sociedades e de nossas incertezas.

Proponho enfim que façamos um esforço para ter calma em relação àquilo que a gente ainda não tem como conhecer e convicção naquilo que sabemos que podemos contribuir com: estabelecer redes de solidariedade; contribuir com os produtores e comerciantes locais e independentes; apoiar os trabalhadores autônomos, os trabalhadores da saúde e dos serviços essenciais; reforçar a atuação dos movimentos sociais e das iniciativas auto-organizadas, cuidar da saúde, inclusive mental, nossa e dos nossos.

 

Notas:

[1] A análise bibliométrica das publicações sobre o zika vírus podem ser encontradas no estudo “Bibliometric Indicators of the Zika Outbreak”, disponível em https://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0005132.
[2] Tempo estimado no artigo “The Response of the Peer Review System to the Ebola and Zika Virus Epidemic”, disponível em https://academic.oup.com/cid/article/65/5/872/3811328.
[3] Pressuposto do estudo “Scientometric analysis of research on Zika virus”, disponível em: https://europepmc.org/article/PMC/5394703.
[4] Constatação da pesquisa publicada em “The global scientific research response to the public health emergency of Zika virus infection”, disponível em https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0229790.
[5] Debate levantado pelo artigo “Preprints: An underutilized mechanism to accelerate outbreak science”, disponível em https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1002549.
[6] Essa busca foi feita na plataforma PubMed em 29/04/2020, (acesso em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/), base de dados que congrega artigos científicos da área da saúde e da biomedicina. Os números apresentados são brutos, não houve exclusão de duplicatas por exemplo.
[7] Por exemplo, como defendido no artigo “Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial”, disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7102549/.
[8] Uma notícia da Fiocruz sobre o estudo pode ser acessada em https://portal.fiocruz.br/noticia/doses-altas-de-cloroquina-nao-sao-indicadas-pelo-estudo-clorocovid-19. Os resultados prévios do estudo foram divulgados no artigo de nome “Effect of High vs Low Doses of Chloroquine Diphosphate as Adjunctive Therapy for Patients Hospitalized With Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) Infection: A Randomized Clinical Trial”, disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2765499.
[9] O estudo prévio em questão chama-se “Scientometric Trends for Coronaviruses and Other Emerging Viral Infections” e está disponível em https://europepmc.org/article/ppr/ppr118405.
[10] Uma busca simples e não tratada do termo “zika” na base de artigos científicos Pubmed retorna 1755 resultados de 2016, 1882 em 2017, 1765 em 2018 e 1513 em 2019. A mesma busca na plataforma SciELO em revistas brasileiras retorna 80 resultados de 2016, 57 de 2017, 79 de 2018 e 54 de 2019. Esta pode ser acessada em https://search.scielo.org/?fb=&lang=pt&count=15&from=1&output=site&sort=&format=summary&page=1&q=zika&where=&filter%5Bin%5D%5B%5D=scl.
[11] É importante ressaltar que esse não é número total de pesquisas financiadas no país, há também fomentos estaduais, por exemplo, que não tem participação do MS. A consulta às pesquisas financiadas pode ser feita em: https://pesquisasaude.saude.gov.br/
[12] O boletim epidemiológico chama-se “Síndrome congênita associada à infecção pelo vírus Zika. SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA, AÇÕES DESENVOLVIDAS E DESAFIOS DE 2015 A 2019” e está disponível em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2019/dezembro/05/be-sindrome-congenita-vfinal.pdf.
[13]É o que constata o estudo “Scientific and technological contributions of Latin America and Caribbean countries to the Zika virus outbreak” disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6507135/.
[14] O estudo inicial chama-se “Estimates of the severity of coronavirus disease 2019: a model-based analysis” e está disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7158570/. Em entrevista disponível em https://unherd.com/thepost/imperials-prof-neil-ferguson-responds-to-the-swedish-critique/, o epidemiologista indica a previsão de um novo modelo atualizado em alguns dias.
[15] O artigo em questão se chama “Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period” e está disponível em https://science.sciencemag.org/content/early/2020/04/24/science.abb5793.

 

Lucas Nishida é biomédico com mestrado em comunicação e informação em saúde. É um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.

 

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