BR(asil) entregue de bandeja

Como alertamos desde a época, isso era uma ilusão, que derivava, em grande medida, da busca por um conforto psicológico em meio a uma luta muito dura. Isso foi um problema, pois a maioria baixou a guarda, enquanto o privatismo continuou avançando na empresa, notadamente com a mudança da política de recursos humanos, que aprofundou o seu giro pra lógica (mais) privada (por exemplo, a hierarquia pisou no acelerador do discurso da “meritocracia”, hierarquizando conhecimentos e varrendo pro adoecimento e pra demissão os que passaram a ser desvalorizados na bolsa de (anti-)valores interna, vistos cada vez mais como losers, numa imitação cada vez maior dos Estados Unidos). E os planos de privatização mais completa da BR continuaram sendo tramados, com menos divulgação.

A hierarquia privatista da Petrobras entregou a BR Distribuidora de bandeja a (des)”investidores” que são mantidos em sigilo. No final de julho, a Petrobras se desfez do controle acionário da sua principal subsidiária (https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/07/25/participacao-da-petrobras-na-br-ja-e-de-37percent-apos-venda-de-lote-suplementar-de-acoes-diz-castello-branco.ghtml). Passou a deter apenas 37,5% das ações da BR, que é a segunda maior empresa no Brasil em termos de receita líquida (obteve 97,77 bilhões de reais em 2018, com um lucro de 3,2 bilhões de reais), atrás apenas da Petrobras (controladora). A atual operação foi feita em duas etapas: primeiro, a Petrobras vendeu 30% das suas ações na BR e logo em seguida vendeu outro lote. Mas ela se somou a uma etapa anterior. Em 2017, a Petrobras já havia vendido quase 30% das suas ações na BR, por meio de uma Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em inglês), na B3, a bolsa do chamado Novo Mercado da Bovespa, na qual todas as ações têm direito a voto. Em 2015, a Petrobras já havia anunciado a venda de parte da BR. Inicialmente, falava em vender 25% e depois passou pra 49% e em até 51%. Como petroleiros, conversamos com trabalhadores da BR desde a época, quando poucos o faziam, e contribuímos pra realização de uma greve em 2016, de dimensão nacional, que abarcou inclusive uma parcela considerável de trabalhadores da sede da BR, ao longo de 5 dias, e que foi importante, junto com outros elementos, pra que grande parte da BR não fosse vendida na época (https://www.facebook.com/inimigosdorei.petroleiros/posts/1831677507055598). Entretanto, a hierarquia privatista aproveitou o cansaço dos trabalhadores pra, um ano depois, mudar a tática de privatização e fazer justamente o IPO mencionado. Muitos trabalhadores ficaram satisfeitos (ou, pelo menos, não ficaram tão insatisfeitos), porque viam o IPO uma alternativa pra que o controle acionário da BR não fosse vendido na prática. Como alertamos desde a época, isso era uma ilusão, que derivava, em grande medida, da busca por um conforto psicológico em meio a uma luta muito dura. Isso foi um problema, pois a maioria baixou a guarda, enquanto o privatismo continuou avançando na empresa, notadamente com a mudança da política de recursos humanos, que aprofundou o seu giro pra lógica (mais) privada (por exemplo, a hierarquia pisou no acelerador do discurso da “meritocracia”, hierarquizando conhecimentos e varrendo pro adoecimento e pra demissão os que passaram a ser desvalorizados na bolsa de (anti-)valores interna, vistos cada vez mais como loosers, numa imitação cada vez maior dos Estados Unidos). E os planos de privatização mais completa da BR continuaram sendo tramados, com menos divulgação.

Num processo em grande parte articulado pelo setor financeiro (os bancos JP Morgan, Citigroup, Bank of America, Santander, Crédit Suisse e Itaú BBA foram contratados pela Petrobras pra coordenar o processo), a Petrobras vendeu o controle acionário da BR, mas, no modelo adotado, de oferta subseqüente de ações (também conhecido pelo termo inglês follow on), de maneira “pulverizada” (alguns veículos de mídia falam em cerca de 160 compradores), não cobrou pelo controle acionário em si. Em geral, o controle acionário acarreta um acréscimo significativo no valor de venda. Afinal, permite estabelecer os rumos da empresa. Mas a hierarquia privatista atuou pra disfarçar essa questão e a operação financeira resultou em 9,63 bilhões de reais. Essa quantia pode parecer elevada, mas, se considerarmos o setor de combustíveis e, de modo mais amplo, de energia e logística, é baixo. Como comparação, podemos dizer que é o equivalente a cerca de três anos de lucro da BR e que foi somente 800 milhões de reais a mais do que a venda do hotel Copacabana Palace pro grupo francês Louis Vuitton, se considerarmos o dólar a 4 reais (https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/12/17/louis-vuitton-compra-do-copacabana-palace-e-demais-hoteis-da-rede-belmond-em-transacao-de-us-32-bilhoes.ghtml). Por mais importante e gerador de riqueza que seja, o Copacabana Palace não é páreo pra BR Distribuidora, que, criada em 12 de novembro de 1971, está distribuída hoje por todas as regiões do país, com mais de 7700 postos (inclusive flutuantes), 95 bases de armazenamento de combustível, 13 depósitos de lubrificantes, 99 postos de abastecimento em aeroportos, mais de 1200 lojas de conveniência BR Mania… Tudo isso e muito mais, oferecendo produtos pra carros, motos, utilitários, ônibus, caminhões, embarcações, locomotivas e aeronaves, além de produtos específicos pro agro-negócio e na geração de energia pro comércio. Líder de mercado na venda de combustíveis, de lubrificantes e de solventes, num país que tem a 6ª maior frota do mundo, o 3º maior mercado de combustíveis do mundo, com potencial de crescimento, tendo em vista que o modal rodoviário vai continuar pelo menos durante muitos anos como o principal no Brasil e que a cultura do carro é muito arraigada no país. Além disso, a BR iniciou experiências de postos voltados também pra veículo movidos a energia elétrica. Outro dado relevante é que a empresa está presente nos 12 principais portos do país. E, como cereja do bolo, tem grande presença no imaginário do povo brasileiro.

Outro atrativo pros compradores foi a atual política de preços de combustíveis da Petrobras, que os atrelou às cotações internacionais do barril de petróleo e do dólar, mesmo o Brasil sendo um grande produtor dessa matéria-prima especialmente estratégica. Com isso, as distribuidoras podem aumentar suas margens de lucro, sem um concorrente de peso vendendo mais barato.

Sujeito oculto

Mas quem, afinal, comprou o controle acionário da BR? Não sabemos ainda. Mas alguns veículos de mídia (como https://jornalggn.com.br/politica/quem-comprou-o-controle-da-br-distribuidora-por-andre-motta-araujo/
e https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/giane-guerra/noticia/2019/07/quem-mandara-na-br-distribuidora-e-o-impacto-da-venda-no-mercado-de-combustiveis-cjyh9knsj04e701msj1sns37k.html) avaliam que grandes gestoras de fundos de investimento e especulação (também conhecidos por sua denominação em inglês, asset management) adquiriram grande parte das ações e que talvez a Shell, por meio da joint-venture que fez com a Cosan, a Raízen, seja a principal nova dona da BR. É possível e até provável também que haja uma concentração das ações nas mãos de algum (ou alguns) comprador(es) mais pra frente. Ou que se mantenha uma “pulverização” de fachada, com os interesses de uma Shell (ou outra) dominando.

A privatização da BR tende a ser ainda mais completa, pois a hierarquia privatista da Petrobras já declarou que pretende se desfazer dos 37,5% de ações que ainda tem em seu poder (https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/08/02/apos-vender-o-controle-da-br-distribuidora-petrobras-avalia-reduzir-a-zero-sua-participacao-na-empresa.ghtml). Enquanto isso, as grandes concorrentes mundiais se empenham na integração, indo do poço ao posto (e ao poste e ao plástico). E pouco tempo após a venda do controle acionário, a hierarquia da BR já anunciou que não haverá mais concursos pra Petrobras Distribuidora. O que não disse, mas provavelmente está organizando, é a demissão em massa dos trabalhadores concursados da BR. Juntando esses dois pontos, o resultado provável é que a transição do perfil majoritário de trabalhadores, que está sendo operada em todo o Sistema Petrobras pela hierarquia privatista e
tecnocrática (tanto a parcela que apenas utiliza a máscara do mito da neutralidade da técnica pra facilitar a aceitação do discurso privatista quanto aquela que acredita que essa neutralidade existe) seja especialmente veloz na BR, formando um contingente quase unânime de pessoas com a mentalidade privada, com vistas, inclusive, a dificultar ainda mais qualquer tentativa de reviravolta. O Conselho de Administração (CA) da BR também vai ser modificado: os integrantes indicados pelo Estado brasileiro vão sair, assim como o integrante eleito pelos empregados. Por mais que muitas vezes os indicados pelo Estado atuem como mais alguns prepostos dos interesses dos grandes agentes privados e privatizantes e que a eleição de um representante dos empregados sirva muito pra alimentar a ilusão de que alguma mudança substancial em prol dos trabalhadores e do povo é possível por dentro das estruturas corporativas (e que não é incomum que representantes dos empregados façam diretamente o jogo dos patrões), a retirada desses integrantes sublinha que o privatismo não quer ninguém potencialmente atrapalhando qualquer aspecto dos seus planos.

Destruição do Brasil

A privatização da BR facilita ainda mais a privatização mais completa da Petrobras. Tira da Petrobras um grande caixa e facilita a privatização das refinarias. Dentro da BR, a dissociação com o nome Petrobras tem sido implementada. Por exemplo, nos novos crachás já não têm mais o nome Petrobras e passaram do verde (característico da Petrobras) pro branco (qualquer semelhança com a conotação de neutralidade não é mera coincidência nesse caso). A transição ainda está sendo feita (a marca BR, como num posto de gasolina, ainda está mantida), pois ainda há muito lucro a ser auferido mantendo a conexão com a imagem que as pessoas (consumidores, no
dicionário do Deus Mercado) têm dos postos de gasolina (e afins). Mas ninguém garante que não está sendo preparada uma mudança mais completa da marca, trocando inclusive o BR. E, mesmo se não trocar, no mínimo dois problemas estarão colocados: 1) uma tendência de que, aos poucos, a marca BR (síntese da marca Petrobras) seja associada na cabeça da população ao mundo privado e que isso seja naturalizado, até o momento em que seja “esquecido” que já foi estatal e, sobretudo, que a Petrobras foi criada a partir de uma imensa luta popular que ficou conhecida como a campanha O petróleo é nosso; e 2) a marca BR seja uma das marcas de um grupo econômico privado que utiliza diversas marcas, como se fosse uma caixa de bombons dentro da qual cada bombom tem uma marca (e uma embalagem) voltada prum público-alvo específico.

A privatização do Sistema Petrobras tem avançado cada vez mais. A privatização da BR é parte disso, que, por sua vez, é parte da privatização mais a fundo do BRasil. O pouco de independência econômica que se construiu, a duras penas, está sendo rapidamente esfarelado. O Brasil está sendo destruído. O mito da neutralidade da técnica, habilmente manejado por setores que se aliaram conjunturalmente com os que cospem o discurso raivoso anti-ciência (o paradoxo desse casamento de conveniência é apenas aparente) tem sido um dos principais alicerces dessa destruição. É impossível, portanto, nesse contexto, dissociar o combate contra o aprofundamento aceleradíssimo da privatização da Petrobras e do Brasil do combate contra o fascismo tecnocrático que se casou com o autoritarismo anti-científico

Este texto foi publicado originalmente em 28 de agosto de 2019 e pode ser acessado aqui

Antony Devalle é trabalhador da Petrobrás e integrante do grupo autônomo de trabalhadores petroleiros Inimigos do Rei. É um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.
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