O trenzinho caipira e outros trens do povão

A bordo do Trenzinho Caipira, seu Petrolino contemplava o Brasil profundo do interior (do seu coração). Com o vento acariciando o seu rosto, fechou os olhos enquanto (ou)via a paisagem. Sonhou o sonho que sempre sonhou. Inspirou(-se). Villa-Lobos regendo as cordas da sua expiração. O povão regendo o Villa-Lobos. Na partitura, o eco de quem plantou e o horizonte de quem vai colher. Mundo, mundo, vasto mundo, a rima é a solução. Clave de sol de cada dia o nosso pão. Saboreando doce de leite, seu Petrolino segura o pequeno barril com petróleo que sempre levava na bagagem e sorri. Apesar de amargar muitas derrotas, mantém doce a esperança. O Brasil é um sonho no pesadelo Brazil. Seu Petrolino não desiste do Brasil. Por isso, dribla e luta contra o Brazil. A Petrobrás (do povo, pro povo e com o povo) dos seus sonhos e das suas lutas é a embaixadinha do povão campeão.

Em cada estação, seu Petrolino conversa com um passageiro. Parece sempre sentado numa cadeira de balanço quando (con)versa. Tem paciência pra contar com entusiasmo os caminhos que percorreu, fazendo o Brasil. Sempre junto com outros petrolinos e severinos, com tantas marias e petrolinas. Hospitaleiro, sempre oferece doce de letra na sua prosa. E sopa de letrinhas na sua poesia. Fala fotos em preto-e-branco e revela filmes coloridos. A saudade corta como aço de navaia, mas os óio se enche d´água mesmo com o belo horizonte que pode ser o povo brasileiro. Quando se (re)encontrar com o seu sonho. Sorrindo de mãos calejadas dadas a calejadas mãos de outros povos num mundo onde cabem vários mundos. E assim seu Petrolino vai dedilhando história(s).

Na estação Ferroviária, uma francesinha com unhas bem feitas subiu no trem. Marianne não conseguia pronunciar Araraquara sem sotaque, mas era uma revolução em pessoa. Na sua gargantilha, 1789 bras nus beijavam 1871 communards. Ela não aceitava que a “república” no seu país colocasse a liberdade-igualdade-fraternidade em sucessivas Bastilhas, e estava sempre disposta a derrubar as prisões com canhões da marca 18 de março. Mademoiselle Marianne e seu Petrolino cantaram juntos La Communarde. Antes de se darem até breve, seu Petrolino aconselhou: “se quiser falar brasileiro, coma brigadeiro, macio e delicioso como a nossa mais terna canção de ninar”. E, mostrando-lhe o barrilzinho com petróleo, disse: “o petróleo é
nosso”.

No Planalto Central, entrou no seu vagão um rapaz genial. Ouviu atentamente Vide Vida Marvada, que seu Petrolino estava ouvindo num radinho de pilha de 1953. Elogiou a canção. E pediu pra mostrar uma canção que ele próprio havia acabado de compor. “É um cordel da cidade grande, um baião de rock, um Lusíadas moderno do nosso povo; nosso Faroeste Caboclo“. “Vamu, fio. Quero ouvi”. Os dois cantaram juntos. “Precisamos mesmo ser um pouco João de Santo Cristo”, comentou seu Petrolino, bestificado com a genialidade da canção como o próprio João de Santo Cristo ficara quando foi chegando em Brasília. “Meu Deus, mas que viagem linda, com o Russo eu recomeço a cantar”, se empolgou. Se abraçaram. Seu Petrolino sabia da importância de ser um fio condutor da revolução brasileira. Entregar a memória às novas gerações e receber delas a próxima chama pra continuar escrevendo as suas memórias (do futuro). Embalado pelo faroeste caboclo do cotidiano, suas palavras eram ao mesmo tempo amorosas como os olhares entre João de Santo Cristo e Maria Lúcia e uma Winchester 22 em frente ao lote 14 da Ceilândia.

Foi então que seu Petrolino conheceu o russo Yuri. O nome era por causa do cosmonauta soviético Yuri Gagarin. Porque ele viu o mundo fazendo muitas revoluções. Fãs de futebol, conversaram sobre a Copa de 1958. Yuri elogiou o time da URSS, mas admitiu que nem mesmo Yashin poderia parar o esquadrão de ouro com Didi, Vavá, Pelé, Garrincha e companhia, que sambava com a bola no pé. Seu Petrolino concordou. Comentou: “o futebol é como o socialismo: a ciência é fundamental, mas sem arte nenhum dos dois viveria pra sempre no coração de multidões. O futebol é (p)arte do nosso solcialismo, e assim como reinventamos o futebol, precisamos (re)criar nossa própria revolução. Vocês têm Yuri Gagarin, nós somos Yuri Gagarrincha”. O russo, que também já gostava do Russo do João de Santo Cristo, sorriu e propôs: “cantemos e dancemos juntos os forrós que nos unem pelo Pagode Russo, do Luiz Gonzaga. O vagão todo veio participar. “Ontem eu sonhei que estava em Moscou/ Dançando pagode russo na boate Cossacou/ Ontem eu sonhei que estava em Moscou/ Dançando pagode russo na boate Cossacou/ Parecia até um frevo naquele cai e não cai/ Parecia até um frevo naquele vai e não vai/ Parecia até um frevo naquele cai e não cai/ Parecia até um frevo naquele vai e não vai/ Vem cá cossaco, cossaco dança agora/ Na dança do cossaco, não fica cossaco fora/ Vem cá cossaco, cossaco dança agora/ Na dança do cossaco, não fica cossaco fora”. E assim ficaram, por longas horas, como numa Transiberiana do continente Brasil, sem ver o tempo passar.

Chegaram em Petrolina. Nessa estação, seu Petrolino se sentia especialmente em casa. Ligou a vitrola das recordações da sua infância. Fez a sesta deixando ecoar no horizonte do seu ser o repente que sempre orientou os seus passos: “Quando tudo começou/ O Criador pensou bem/ Só Ele pode dizer/ De onde a poesia vem/ E que quando Ele fez o mundo/ Fez poesia também/ Nossa poesia vem/ Como flor na ventania/ Pra mim poesia e Deus/ Nasceram no mesmo dia/ Enquanto Deus existir/ Existirá poesia/ Essa doce melodia/ É pura igualmente à flor/ Perene como uma fonte/ Irmã gêmea do amor/ E por isso também faz parte/ Das obras do Ciador/
Eu não vejo a sua cor/ Mas me orgulho por tê-la/ No jardim é rosa virgem/ No espaço é uma estrela/ Peça que nós somos donos/ E os olhos não podem vê-la/ Poesia é a estrela/ Herdada na Antiguidade/ Nasceu do parto da luz/ E doída como a saudade/ Ninguém mais tem o direito/ De saber da sua idade/ Poesia é a saudade/ Da dor da separação/ Nasce no pomar do peito/ Para fazer germinação/ Peça abstrata que enfeita/ O museu do coração/ Foi na Grécia a inspiração/ Nos tempos anteriores/ Na Europa fez história/ Dos antigos trovadores/ E no Nordeste é a vida/ Dos poetas cantadores/ Poesia, uma das flores/ Que só Deus beija a corola/ Jóia que a mão não segura/ Se aprende sem escola/ Imagem que a gente amarra/ Com dez cordas de viola”.

Dos sertões, o trenzinho foi seguindo viagem, e em cada estação mais gente ouvia as histórias musicadas do seu Petrolino. Agora, todos já cantavam juntos e o trenzinho parecia avançar pela força do coral. O trenzinho agora era de todos. Todos maltratados pelo Brazil. Todos em luta contra o Brazil. Todos semeando o Brasil. Brasil x Brazil. O povão chamado Brasil construindo com suas próprias mãos o sonho Brasil. Pra saboreá-lo como um delicioso doce de leite. Quem fazia o trenzinho funcionar era cada caipira do campo e da cidade, tanto os que viajavam nele quanto os das cidadezinhas e das cidades grandes por onde ele passava. E a cada estação ficava mais nítido pra todos que eles é que faziam funcionar o trenzinho e cada estação. E que a boa conjugação entre o trabalho de cada um e o trabalho de todos, cada um se esforçando por todos e todos se responsabilizando por cada um, era a chave do refrão que cantavam enquanto construíam cada estação da sua estrada de ferro e de sonhos: “E assim já ninguém chora mais/ Ninguém tira o pão de ninguém/ O chão onde pisava o boi/ É feijão e arroz, capim já não convém”. Mas o Brazil detesta o trenzinho caipira. Faz e fará de tudo pra destruí-lo. O povo do trenzinho só quer viver o seu caminho, mas sabe que ou enfrenta o Brazil ou o Brasil sonhado nunca vai florescer.

Ao longo do percurso, seu Petrolino vai mostrando aos companheiros a importância da Petrobras pra que o Brasil sonhado seja viável. Sem soberania energética, nenhum projeto popular vai conseguir realmente iluminar o Brasilzão sem fim. Por isso, é tão importante lutarmos contra a privatização da Petrobras. Como ela já está muito privatizada e como a privatização atropela os trabalhadores e a nação popular, estraçalhando diariamente o Brasil, é urgente os petroleiros e o conjunto do povo trabalhador se transformarem numa grande muralha pra impedir que o território petroleiro seja completamente dominado. Mas isso não basta. Vai ser necessário recuperar cada parte arrancada do território petroleiro. E da revolução brasileira terá que fazer parte a revolução petroleira. Precisamos de uma Petrobrás do povo, pro povo e com o povo. Isso passa pela indispensável descolonização da Petrobrás. O Brazil coloniza. O Brasil descoloniza. A Petrobrás precisa ser o trenzinho caipira do Brasil. Seu Petrolino escreve essas palavras na partitura esculpida por seus companheiros.

Próxima estação: Central do Brasil. Na periferia. A periferia é o centro. O trem estava lotado. A multidão era sacudida no batidão: “Era só mais um Silva que a estrela não brilha/ Ele era funkeiro mas era pai de família…”. De repente, o rap(ente) chegou também, num outro trem boladão: Negro Drama. E mais outros trens, uais e outros sotaques desse mundão chamado periferias do Brasil. Firmeza total. Bonde da revolução. Avenida Suburbana é o caminho trilhado. A Petrobrás é a grande Central do Brasil e precisamos fazê-la ser Suburbana. Precisamos passar o trenzinho caipira e todos os outros trens do povão pela estação Petrobrás. E fazer a Petrobrás entrar nesses trens pra não perder o bonde da história. Só assim pode ser transformada no trenzinho caipira no coração de todos os trens populares do Brasil.

Nesse caminho, “palavras abrirão caminhos por entre os espinhos“. E palavras são feitas de ação.

Antony Devalle é trabalhador da Petrobrás e integrante do grupo autônomo de trabalhadores petroleiros Inimigos do Rei. É um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.

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